Sobre a literatura indigenista

Espero que não achem esse post chato, mas é que ultimamente tenho lido mais sobre povos indígenas brasileiros. Sempre me interessei pelo assunto, mas só agora tenho buscado conhecimento para poder pensar melhor a questão da luta indígena.

E já que estamos no meio de um conflito tenso entre produtores rurais e indígenas, na Terra Indígena Buriti (MS), muito explorado pela imprensa, vou aproveitar e partilhar minhas experiências com livros da área.

Antes de falar sobre os livros, é preciso dizer que existe hoje no Brasil um desconhecimento famigerado da cultura indígena nacional. Geralmente as pessoas ignoram as especificidades dos povos nativos e consideram como se todos eles fossem uma coisa só, sem levar em consideração a cultura particular de cada etnia. São tratados genericamente por “índios”, como se todos os povos falassem a mesma língua e dividissem as mesmas experiências históricas. Engano.

De acordo com a Fundação Nacional do índio (Funai), existem hoje cerca 800 mil índios, divididos em 250 povos e falantes de 180 línguas distintas. À primeira vista parece um número admirável, mas é uma quantidade irrisória da população brasileira, apenas 0,2%, uma minoria social. E é aí que eles ficam à margem da igualdade de direitos fundamentais a todo o cidadão e, são ameaçados inclusive, de ficar a margem dos direitos a eles conferido na Constituição Federal.

Esse é um assunto muito vasto, que carece de um embasamento mais aprofundado, e que eu ainda não tenho. Mas preciso dizer que eu acredito que a luta pelos direitos dos povos indígenas não diz respeito apenas aos índios, mas está ligado a um modelo de sociedade e de Pais que nós queremos ter. Mais justo e igualitário.

Abaixo os textos indigenistas que li e acho que merecem nossa atenção.

Relatório Figueiredo

Fotos comprovam o massacre contra os povos indígenas

Fotos comprovam o massacre contra os povos indígenas

Produzido durante a Ditadura Militar é um dos documentos mais importantes do País. Foi encontrado no ano passado, no Museu do Índio do Rio de Janeiro, após 45 anos desaparecido. Se pensava que o documento, que contém mais de 7 mil páginas, tivesse sido destruído em um incêndio na década de 70.

Ao ser localizado, o relatório reascendeu o debate sobre direitos humanos, violência contra os povos indígenas e usurpação patrimonial e territorial. Entre as denúncias, o relato de tortura e assassinatos brutais cometidos contra indígenas, e patrocinados pelo governo.

É surreal ler isso, parece até roteiro de filme de terror. Em uma das passagens mais chocantes, a narração de caçadas humanas feitas com metralhadoras e dinamites, além de inoculações propositais de varíola em povoações isoladas, casos de exploração de crianças indígenas e até doação de alimentos contaminados com estricnina, o famoso veneno de rato.

Em outro trecho, fala da principal forma de tortura da época, o tronco:

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Dá para acreditar?

Eu recomendo a leitura do relatório, existe no site Combate ao Racismo Ambiental uma versão reduzida do texto, com 68 páginas.

Marãiwatsédé – Terra de Esperança

(Org.: Operação Amazônia Nativa e Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção)

25-povo_xavanteMarãiwatsédé  é a terra indígena mais desmatada da Amazônia brasileira. Nos anos 60, durante a ditadura militar, os indígenas foram retirados da área e a floresta foi convertida em pastagens e lavouras. A proposta desse livro é reunir elementos históricos, culturais, jurídicos e antropológicos para a compreensão do que está em jogo quando os Xavantes afirmam que de sua terra não vão sair mais. O livro é curtinho, 58 páginas, e é composto por muitas fotografias da terra xavante.

O texto é claro e, além do conflito na área, traz características dessa cultura indígena, mapas, dados e a história do povo. Eu recomendo. É um retrato triste, mas esclarecedor, de Marãiwatsédé e dos Xavantes.

Quem quiser saber mais sobre essa história, em 2011 foi produzido o documentário Vale dos Esquecidos, sobre Marãiwatsédé e os Xavantes.

Relatório de violência contra os povos indígenas no Brasil (Conselho Indigenista Missionário)

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Esse relatório é, na verdade, um texto assustador, por que é o retrato de como as autoridades e a sociedade se relacionam com os povos indígenas. Além de discutir a morosidade do governo em reconhecer os direitos dos povos originários, o livro quantifica a vulnerabilidade indígena. Genocídio, racismo e suicido também são temas abordados no texto.

Para quem se interessar o texto integral do relatório já pode ser acessado.

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14 comentários sobre “Sobre a literatura indigenista

  1. Oi Hellen!!

    Difícil encontrar alguém que se interesse por isso! Eu fico triste por toda esse história de extermínio da cultura indígena e hoje eu tenho muitas dúvidas sobre a realidade atual do índio. As vezes vemos eles brigando por terras, e todos estão vestidos, na época de copa do mundo a Globo mostra uma oca com uma tv 30 polegadas dentro pra tribo assistir o Brasil, a funai… Sei lá… Não entendo essas coisas. Aí, a poucos dias atrás decobri que quem mora em alphaville tem q pagar uma taxa ( imposto mesmo ) por estar em terras indígenas…Pera aí! Todos nós estamos em terras indígenas não?? E esse imposto? Pra onde vai? Vai pro índio? Enquanto isso eles vão diminuindo, diminuindo…

    Bjos
    Ju

    • Oi Ju,
      que interessante você levantar essa questão. Os índios estão divididos em urbanos; aldeados e de recente contato; e isolados. Muitos, infelizmente, estão perdendo alguns hábitos, e adquirindo outros, como no caso dos Guarani. Isso acontece principalmente por causa do campo e das cidades que avançam sobre as aldeias. Mas outros índios de recente contato ainda mantém fortes suas tradições culturais.

      Sobre as terras indígenas, acontece que hoje existem três pontos focais de conflito, entre produtores e indígenas: Mato Grosso do Sul, Região Sul, e o sul da Bahia. Essas são as áreas que mais houve extermínio de aldeias indígenas e grilagem de terra. O estado simplesmente expulsou os índios e arrendou as terras para produtores rurais. É preciso levar em consideração aí que os índios têm uma relação com a terra que é diferente da que nós temos. A terra é culturalmente, para os índios, uma mãe e deve ser protegida.

    • (cont)
      Além disso, a Constituição Federal determina que 15% do território brasileiro seja demarcado para os índios. Hoje, temos 12% demarcados, e são esses 3% restantes que mais estão dando conflitos, por que estão nessas áreas de tensão que eu citei acima. A demarcação não é só uma questão de posse da terra pelos indígenas, é uma questão de justiça. Já que eles foram arrasados, expulsos de suas terras e até exterminados (vide o relatório Figueiredo), para dar lugar a pastos, fazendas e gado.

      É muito triste a situação dos índios brasileiros, e garantir o direito a perpetuação da cultura e um lugar seguro para viver, é o mínimo que podemos fazer por eles.
      Ufa… Escrevi um outro post rsrs. Mas é que me empolgo quando falo disso.

      Obrigada pelo comentário Ju!
      Beijos

  2. Acho que esse é o primeiro post que eu vejo DESDE SEMPRE que trate sobre esse assunto. Incrível o seu post! 🙂
    Eu não conheço tanto assim todos os impactos da cultura indigenista ao longo da história, mas seu post foi MAIS do que informativo. *-*

    Um beijo,
    Luara – Estante Vertical

  3. Confesso que nunca me interessei muito pelo assunto, apesar de ser algo interessantíssimo (pelo que percebi no seu post) e também por fazer parte da história do nosso país.

    Mas não dou conta… é muito sofrimento!
    Gostei demais do seu post.
    Beijinhos Héllen!
    Bom fim de semana.

  4. Minha florzinha, tudo bem?

    Adorei tudo o que vc falou sobre os índios. Confesso que não é algo que eu tenha um conhecimento aprofundado e até gostaria de ter pq, afinal, com certeza onde eu, você ou várias outras pessoas moram atualmente, um dia foi habitado por índios. Aqui no Rio também estamos tendo alguns problemas com relação aos índios. Não sei se vc é carioca ou se tá sabendo também do que está ocorrendo, mas, ao lado do Maracanã (estádio de futebol), havia um museu abandonado que há alguns mt anos atrás era o museu do índio. Acontece que existem atualmente mtos índios morando lá e, devido às reformas para a Copa, eles foram despejados e, pretendiam, inclusive demolir esse local. Até agora não demoliram, enm sei o que se dará… mas enfim…

    beijos, flor
    Kel
    porumaboaleitura.blogspot.com.br

  5. Bom já te parabenizaram pelo post!
    Mesmo assim Parabéns é gratificante ver que discussões sobre nossa cultura estão tomando frentes. minha primeira vez lendo seu blogue e simpatizei-me.
    só achei que a primeira parte dos post aquela que disse “espero que não achem chato o post” não foi necessária!
    Primeiro que quanto mais público ele atingir mais pessoas conhecedoras do assunto teremos. E depois nunca é chato saber sobre nosso povos, os quais não se ressumem a somente europeus e africanos. Enfim informação é e deve ser bem -vinda.

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